sábado, 26 de dezembro de 2009

Roma, 25/12/2009

Acho que o cara se empolgou. Agora deu para escrever todos os dias. Esta até pensando em se aposentar e virar escritor. Diz que eu sou “sua inspiraçao”. Algo me diz que isso nao é propriamente um elogio.....


Segue o texto de hoje, com a minha costumeira indignaçao....




Da série: As aventuras de Lady Turkey


La ragazza mozzarela
(Extraido do diario secreto do lacaio Pietro)


Dias depois do transtorno mental que levou Lady Turkey, nas vias sinistras de Pompéia, a imaginar que fosse Calpurnia, a mulher de César – nao aquela que deveria parecer honesta, mas a derradeira que de fato o era – a terrivel senhora convocou às pressas o lacaio Pietro, com a seguinte ordem: “Hoje quero conhecer a culinaria romana. Depressa leve-me ao que esta Cidade Eterna tem de mehor. Trattoria, pizzeria, tavola calda, tudo, quero conhecer absolutamente tudo. E comer. Comer muito!”


Como a vontade da senhora de meu destino é sempre uma ordem, la fui eu a guia-la por todas as portas abertas que rescendiam a comida naquela tranquila manha de Natal. Na ocasiao, a elegante Lady ja esquecera que um dia fora conhecida no Trastevere como a “Rainha do Gorgonzola”. Depois de se acabar de tanto comer aquele tipo de queijo puzzolento, simplesmente um dia ordenara ao lacaio que jamais pusesse novamente a sua frente um naco sequer daquela massa lactea repugnante e esverdeada. Grazie a Dio!


Mas se naquela jornada nao teve gorgonzola, nao faltaram outras iguarias, como por exemplo polo alla diavola, zuppa de zuca, rustico de prosciutto e formaggio, pasta, abbacchio, capretto, maiale, pizza e mais pizza. Enfim, uma aventura gastronomica inesquecivel, regada a generoso vinho dei Castelli Romani.
Tudo andava bem até que sobreveio mais uma alucinaçao. Ao provar, num canto qualquer do Campo de Fiori, um naco de mozzarella de bufalla – no caso acompanhada de tomatinhos frescos, basilico, azeite e sal – teve um estupor de tal ordem que este humilde lacaio logo anteviu a chegada de um novo surto. E foi o que aconteceu. A partir daquele instante so queria comer mozzarella. Se fartou tanto daquele queijo, tambem conhecido como fiore di latte, que a um certo ponto, em novo acesso, começou a achar que era, ela propria, uma mozzarella.


Ja fluente no italiano – que aprendera com a mesma rapidez com que antes incorporara a seu vocabulario cotidiano palavras e expressoes de praticamente todos os idiomas do mundo – a incrivel Lady Turkey passou a se apresentar a quem quer que encontrasse pela frente como “La ragazza mozzarella”. Colhi-a em repetidas ocasioes naquele dia de Natal, cumprimentando os transeuntes na Piazza Venezia, com aquela incomparavel simpatia e vocaçao para relaçoes publicas (a menina nasceu para isso), repetindo o seu buona sera ou buon natale, sempre seguidos do indefectivel refrao: “Sono del Brasile, mio nome è Claudia, ma puo chiamarme de Ragazza Mozzarella”. Provocou tanto espanto e murmurinho, que a chegada da ambulancia para recolhe-la ao sanatorio foi saudada com um entusiasmo tamanho, que fez recordar os bons tempos de comoçao publica provocados pelos discursos do saudoso Duce.


Evidentemente, no dia seguinte, ja recuperada, a tirana atribuiu a culpa de suas desventuras gastronomicas romanas, como habitualmente, a este povero lacaio. Por sorte, foram apenas cem chibatadas. E tudo voltou a tranquilidade ate o dia em esta vitima de tao miseravel destino recebeu a missao de conduzir a terrivel Lady Turkey a um passeio pelo Foro Imperiale, do qual tratarei adiante..


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