segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Roma - Ultimo Dia


Nosso ultimo dia em Roma. Amanha na hora do almoço embarcamos para Madrid.
Queriamos aproveitar ao maximo e o dia parecia querer colaborar na despedida. Nasceu lindo. Nenhuma nuvem, céu azul desde as 8h da manha. Finalmente iriamos visitar o Museu do Vaticano, a Capela Sistina e a Basilica de S. Pedro.
Ainda bem que deixamos para o ultimo dia senao teriamos nos divorciado logo no começo da viagem.....
Não entendi porque Roma inteira resolver ir ao mesmo lugar que nos, justo hoje! Sera que é porque é época de natal (uma festa religiosa)? Ou talvez quisessem aproveitar o primeiro dia de sol depois de mais de 15 dias de chuva? O fato desse ser o unico domingo em que o Museu abre e ainda por cima é gratis teve alguma influencia?
Não sei. So sei que chegamos la uns 20 minutos antes da abertura das portas e ficamos 2 HORASSSSS na fila! No começo tudo bem. Estavamos “de boa”. Conversamos, observamos a geografia humana, fofocamos sobre tudo e sobre todos que passavam. Quando alguns turistas meigos começaram a querer furar fila, a minha versao flex foi para o brejo. So não fiz escandalo para não dar assunto para o Pedro nas “colunas” sobre Lady Turkey!
Confesso que fiquei com os nervos “ligeiramente” alterados. Mas, não houve nenhum problema. Afinal, para que servem os lacaios se não for para descontarmos neles nossas sentimentos mais primitivos?
Quando finalmente entramos eu, a ingenua, achei que tivesse acabado a tortura e que iriamos poder apreciar as belissimas obras de arte. Algumas de 2 mil anos A.C.! É realmente um espetaculo. Ou melhor, seria. Não consegui ver quase nada. Em praticamente todas as salas a manada (euzinha incluida) era obrigada a seguir enfrente sem nem sequer tirar uma fotinho!
Quando a dor nas costas e a minha raiva passarem posso recomendar esse passeio. É lindo! Por enquanto so quero ficar longe de multidoes por alguns anos.....
Ao sair acabou a tortura? Naaaaaao! Queria conhecer a Basilica de Sao Pedro para que o Pedro pudesse se confessar e pedir perdao dos milhares de pecados que comete diariamente. E..... mais fila... gigantesca.... Para não matar o meu pobre lacaio numa explosao de raiva, fiquei sem ver a Basilica. Tudo bem. Houve uma compensaçao: o Pedro se comprometeu a me trazer novamente para Roma para que eu possa ver tudo o que não conseguimos visitar nessa viagem!
Acabada a maratona religiosa e com todos os pecados pagos até 2050, fomos finalmente almoçar e aproveitando o dia lindo começamos a procurar a tal pasta del Capitano que o Pedro tanto gosta. E.....Não existe em lugar nenhum!Se o meu pai resolver denunciar meu maridinho por maus-tratos, eu apoio! Na ultima viagem que papito fez para a Italia, recebeu uma encomenda de seu genrinho preferido de …... pasta del Capitano. O cara virou a cidade de avesso e trouxe os unicos exemplares que foram fabricados nos ultimos 30 anos. E não é so isso.... quando ele comentou com o genrinho que foi dificil achar, Pedrito deu risada....



Não sei se é TPM, depre pelo fim da viagem ou alergia à multidao mas estou de péssimo humor. Nem consegui curtir o resto da unica tarde de sol em Roma....
Bom, pelo menos não matei o Pietro. Pelo menos não ainda.....

sábado, 26 de dezembro de 2009

Roma, 25/12/2009

Inacreditavel a influencia do espirito natalino aqui em Roma! Eu, que habitualmente já sou um doce, aqui me transformo na bondade em pessoa. Movida por esse espirito, cumpri com a minha funçao social, devidamente orientada pelo Lulinha. Iniciei o meu lacaio no projeto de inclusao digital. Confesso que não é facil. Nada facil! O pobrezinho é um completo analfabeto. Não tem a menor idéia de coisas basicas, que como diria meu irmaozinho, qualquer burro sabe. Tenho que apresentar ao menino coisas como: facebook, orkut, picassa, e..... pasmem!..... skipe.
Mas, como todos os que tem esse meu espirito de madre Teresa sabem, é extremamente prazeroso ver o sorriso no rosto de uma criança (nesse caso meio passada) ao descobrir algo novo e fascinante.
Voces não imaginam como foi incrivel ver o Pedro pulando pela sala na hora que o computador começou a fazer uns barulhos estranhos (era o sinal do Skipe) e a carinha da Naty aparecendo na tela! E quando todo mundo começou a aparecer desejando Feliz Natal? O menino surtou!
Não conseguia entender como aquelas pessoas, conhecidas dele e que estavam no Brasil, podiam estar dentro dessa caixinha magica chamada computador! Deve ter sido semelhante à reaçao dos que viram a TV pela primeira vez...
Foi uma experiencia muito gratificante propiciar essa vivencia ao meu maridinho.


Mas, como nem tudo é bom para sempre, apos desligarmos o computador, longe da webcam, o mostro me obrigou a lavar a louça! Isso mesmo! Na noite de Natal! Inacreditavel! Despois de tudo o que fiz por ele!
Cumpri com a minha obrigaçao sem reclamar. Afinal, é natal.... Vamos deixar o probrezinho acreditar que finalmente me dominou.... amanha ele vai ver so.....


Como a nossa estadia em Roma esta chegando ao fim, decidimos levantar bem cedo e ir conhecer o que faltava da cidade. Pegamos aquele onibus que percorre todos os pontos turisticos da cidade e la fomos nos!
Mais um milagre de Natal: não chovia! Também não tinha nada aberto.... não dava para visitar o Coliseu nem o Vaticano nem nada.....
Não entendi muito bem porque o Pedro estava ligeiramente impaciente comigo so porque quis tirar umas fotinhos. Esses homens sao muito dificeis de agradar! So porque tirei umas 600 fotos (literalmente). Ele não entende nada da dificil arte de fotografar!


Exercitando mais uma vez a minha nova funçao de instrutora do programa de inclusao digital, obriguei o menino (o lacaio...) a tirar algumas fotos minhas. Orientei qual a paisagem eu queria e como eu deveria sair na foto. Não entendi porque ele jogou a maquina no chao e começou a saltar sobre ela feito um louco so porque pedi que tirasse a mesma foto pela 20a vez. Acho que é porque ele ficou frustado por ter dificuldade em aprender.... so pode ser isso, né?


Acho que estou com saudades de dar aula. Aproveitei a jornada de hoje para ensinar à plebe um pouco de relaçoes publicas. Claro que é um tema dificil para seres dotados de tao poucas luzes. Ele não entendeu quando eu não resisti e me intrometi na briga de uma familia de turistas brasileiros. Ele até saiu de perto! So porque os caras estavam com um daqueles europass e não sabiam usar e eu, gentilmente, sem ser solicitada, abordei o pessoal e comecei a explicar o que fazer. Essa plebe não entende nada mesmo! Por isso ele nunca vai poder ser meu assistente quando eu substituir o Celso Amorim. No maximo vai continuar sendo o meu pobre lacaio. Pobre, é claro! Com essa deficiencia na formaçao, nunca vou poder aumentar o salario dele.


O passeio de hoje foi mais deslumbrante que o de Pompeia! Passamos pelo Coliseu, pelo Forum Imperial e o Capitolio. Uma aula de historia magnifica! Meu maridinho realmente é uma enciclopédia ambulante. Sabe tudo de historia romana. Até estou desconfiada que ele foi correspondente da Folha do século VII A.C. até a Unificaçao Italiana em 1881 (mais ou menos). As vezes acho que ele realmente foi Julio Cesar (conforme ele afirma desde que fez uma regressao).


Uma coisa me surpreendeu muito nessa viagem: quase não vi brasileiros. É incrivel o trabalho que o Lulinha fez. Estao todos tao felizes no Brasil que nem querem vir para a Europa (um continente em crise....)


Outra experiencia muito ilustrativa foi a convivencia com a plebe. Pude ver como germinam as revoluçoes. O lacaio Pedro, tao submisso ao pricipio, depois da inclusao em diferentes programas (digital e relaçoes publicas) começou a colocar as asinhas de fora. Já me deixa largada no meio das ruinas e nem da a mao para auxiliar uma patricia como eu a andar naqueles terrenos irregulares. Mas esse foi apenas o começo. Ao chegarmos ao nosso apto, depois de uma longa e exaustiva jornada, me obrigou a passar todas as suas camisas (que eu tive que lavar ontem)! Me senti a propria Maria Antonieta. É dificil entender porque o populacho, apos ser tratado com brioches, decide se rebelar contra sua benfeitora.


Com esse tratamento, espero conseguir sobreviver até o fim da viagem.

Roma, 25/12/2009

Acho que o cara se empolgou. Agora deu para escrever todos os dias. Esta até pensando em se aposentar e virar escritor. Diz que eu sou “sua inspiraçao”. Algo me diz que isso nao é propriamente um elogio.....


Segue o texto de hoje, com a minha costumeira indignaçao....




Da série: As aventuras de Lady Turkey


La ragazza mozzarela
(Extraido do diario secreto do lacaio Pietro)


Dias depois do transtorno mental que levou Lady Turkey, nas vias sinistras de Pompéia, a imaginar que fosse Calpurnia, a mulher de César – nao aquela que deveria parecer honesta, mas a derradeira que de fato o era – a terrivel senhora convocou às pressas o lacaio Pietro, com a seguinte ordem: “Hoje quero conhecer a culinaria romana. Depressa leve-me ao que esta Cidade Eterna tem de mehor. Trattoria, pizzeria, tavola calda, tudo, quero conhecer absolutamente tudo. E comer. Comer muito!”


Como a vontade da senhora de meu destino é sempre uma ordem, la fui eu a guia-la por todas as portas abertas que rescendiam a comida naquela tranquila manha de Natal. Na ocasiao, a elegante Lady ja esquecera que um dia fora conhecida no Trastevere como a “Rainha do Gorgonzola”. Depois de se acabar de tanto comer aquele tipo de queijo puzzolento, simplesmente um dia ordenara ao lacaio que jamais pusesse novamente a sua frente um naco sequer daquela massa lactea repugnante e esverdeada. Grazie a Dio!


Mas se naquela jornada nao teve gorgonzola, nao faltaram outras iguarias, como por exemplo polo alla diavola, zuppa de zuca, rustico de prosciutto e formaggio, pasta, abbacchio, capretto, maiale, pizza e mais pizza. Enfim, uma aventura gastronomica inesquecivel, regada a generoso vinho dei Castelli Romani.
Tudo andava bem até que sobreveio mais uma alucinaçao. Ao provar, num canto qualquer do Campo de Fiori, um naco de mozzarella de bufalla – no caso acompanhada de tomatinhos frescos, basilico, azeite e sal – teve um estupor de tal ordem que este humilde lacaio logo anteviu a chegada de um novo surto. E foi o que aconteceu. A partir daquele instante so queria comer mozzarella. Se fartou tanto daquele queijo, tambem conhecido como fiore di latte, que a um certo ponto, em novo acesso, começou a achar que era, ela propria, uma mozzarella.


Ja fluente no italiano – que aprendera com a mesma rapidez com que antes incorporara a seu vocabulario cotidiano palavras e expressoes de praticamente todos os idiomas do mundo – a incrivel Lady Turkey passou a se apresentar a quem quer que encontrasse pela frente como “La ragazza mozzarella”. Colhi-a em repetidas ocasioes naquele dia de Natal, cumprimentando os transeuntes na Piazza Venezia, com aquela incomparavel simpatia e vocaçao para relaçoes publicas (a menina nasceu para isso), repetindo o seu buona sera ou buon natale, sempre seguidos do indefectivel refrao: “Sono del Brasile, mio nome è Claudia, ma puo chiamarme de Ragazza Mozzarella”. Provocou tanto espanto e murmurinho, que a chegada da ambulancia para recolhe-la ao sanatorio foi saudada com um entusiasmo tamanho, que fez recordar os bons tempos de comoçao publica provocados pelos discursos do saudoso Duce.


Evidentemente, no dia seguinte, ja recuperada, a tirana atribuiu a culpa de suas desventuras gastronomicas romanas, como habitualmente, a este povero lacaio. Por sorte, foram apenas cem chibatadas. E tudo voltou a tranquilidade ate o dia em esta vitima de tao miseravel destino recebeu a missao de conduzir a terrivel Lady Turkey a um passeio pelo Foro Imperiale, do qual tratarei adiante..


Roma, 24/12/2009

Hoje passamos o dia fazemos comprinhas para preparar nossa ceia de Natal. Fomos até a Piazza di Fiori, compramos um arranjo para nossa mesa e um presepio.
Acho que o lacaio Pietro ficou com medo de faltar comida ja que amanha nada funciona. Comprava tudo o que via pela frente nos dois supermercados em que passamos!
Alias, nao sei como o pessoal daqui nao é gigantesco! A cada passo ha uma lojinha de conveniencia, uma tavola calda (com comidas prontas para comer la ou levar para casa, uma padaria, doceria, cafe..... so pensam em comida por aqui!
Agora entendo essa fixaçao do Pedro pela cidade.  é a cara dele: historia e comida. Muita comida.
As padarias/docerias sao incriveis. Um doce melhor que o outro, paes de todos os estilos e sabores. Muitoooo melhor que a Ceci.

Ainda bem que é natal. Tivemos uma boa desculpa para comprar um pouco de tudo! Na verdade, nem foi tao pouco assim.... Se vocoes quiserem se candidatar a passar o natal aqui podem vir. E nem precisam avisar. Vai ter comida para umas 15 pessoas (no minimo).

O nosso presepio é lindinho e ainda por cima acende a luz e tem musica de natal. Digno de lady Turkey!

Bom,  agora temos que começar a preparar a casa e a ceia para o nosso primeiro natal de casados!

Espero que aproveitem muitissimo por ai e se divirtam.

Desejamos que estejam tao felizes como nos! Aqui, para ficar perfeito, so faltam voces!

Roma, 23/12/2009

Sol. Finalmente um dia de sol. Ja estava ficando embolorada de tanta chuva!

Ontem, depois de um dia de muito repouso, fomos a um jantar fantastique numa taverna colada ao nosso hotel. Nem pudemos ficar até muito tarde pois hoje sairiamos cedinho para Pompeia.

Nem sei como conseguir acordar. Ou melhor, sei sim. O lacaio Pietro colocou o meu IPhone para despertar às 5h30 da madrugada! E nao é so isso. Escolheu um alarme beeeemmmm discreto: um carrilhao! Nao acordei. Fui jogada contra o teto. Ainda bem que estava louca para conhecer Pompeia!

Saimos de casa antes do amanhecer para pegar o onibus de excursao que nos levaria à Napoli e a Pompeia. O passeio foi uma delicia. Entrei no onibus e dormi.....

Brincadeirinha. so dormi depois que entramos na estrada (apesar do Pietro dizer que foi depois que o motorista deu a partida no onibus....)

Napoli é bem "italiana": montes de roupas penduradas naqueles varais que ficam para fora da janela dos aptos. No começo achei a cidade feia mas, quando chegamos ao porto.... a paisagem é linda! Maravilhosa. Pena que varios dos edificios da cidade estejam muito pixados.

é incrivel estar aqui e VER a historia.

Almoçamos num restaurante na estrada. Também nesse restaurante dividimos a mesa com outras pessoas. Nesse caso com um casal de japoneses que nao falava nenhuma outra lingua além do japones! Nem achei ruim. Assim nao eramos obrigados a conversar.... Bom, isso se eu fosse casada com uma pessoa normal. Nao é que o lacaio Pietro resolveu conversar com o casalzinho! Ele sabia umas quantas palavras e o resto ele inventava ou pior, gesticulava. A pobre da menina se matava de rir. Até pediu para tirar uma foto com ele! Deve ter achado que ele era uma espécie de Didi (dos trapalhoes)....
Pelo menos eles vao ter o que contar sobre a lua de mel....
Para completar, o meu lacaio ainda ficou falando que nunca me viu muda assim.... que em todas essas nossas aventuras sociais dos ultimos tempos, os demais participantes tinham ate que tirar senha se quisessem que eu deixasse alguem falar.... (que injustiça!!!!)

Finalmente, depois de 3 horas, chegamos à Pompeia. A cidade é espetacular! Para voces terem ideia de como é incrivel, eu até fiquei sem palavras (de novo). Para onde vc olhe ha uma ruina mais impressionante que a outra. Meu maridinho (Pedro google, para os intimos) ficou me contando a historia de Roma (que para mim é historia mas que é so mais um capitulo da vida dele....). Confesso que nos divertimos muito. Adorei o meu papel de Calpurnia. Acho que realmente nasci para ser parte do patriciado romano e para mandar. Pobre Pietro!

Comprei uma lembrancinha otima: uma mesa de sacrificios. Dizem que so era usada para sacrificar animais para os Deuses mas..... acho que vou usar para sacrificar o Pietro caso nao se comporte bem.
Pelo jeito a coisinha funciona. Instalei aqui na sala e, enquanto fui trocar de roupa o Pedrito fez um jantar delicioso. Veremos como se sai na ceia de Natal...

Roma, 23/12/2009

Segue mais um dos relatos "engraçadinhos" del mio marito.
A incrivel transformaçao de Lady Turkey em Calpurnia nas ruinas de Pompeia
(Extraido do diario secreto do lacaio Pietro)
Todos que um dia tiverem acesso a estas breves cronicas de uma vida de lacaio sob  jugo implacavel  hao de saber das desventuras deste pobre escriba ao longo da fatigante faina de servir a personagem tao nobre, quanto malvada, como aquela outrora gentil senhora, de batismo Claudia, que sob fulminante ataque consumista transformara-se em plena Via Condoti em Lady Turkey.
Um dia, ha muito tempo atras, a terrivel Lady decide, de forma surpreendente, atravessar a muralha de Roma para andar a uma cidade fantasma do mezzogiorno, gloria da costa mediterranea nos anos seminais da era crista. Apos chicotear, como fazia habitualmente,  seu pobre lacaio, ordenou: “Pietro, arrume minha bagagem, vamos a Pompeia”. Mal sabia a sgrazziata que estava traçando os contornos do proprio e surpreendente destino.
Apos escapar das nuvens cinzentas e da gelida chuva persistente de Roma, ingressou na sua bela carruagem – puxada, obvio, por este misero lacaio – na magnifica Via del Sole – alias, naquela jornada, iluminada mesmo por um sol deslumbrante. Tudo, entao, andou muito bem. Ate as portas de Pompei.
Ao apresentar-se ante aquela esplendida reliquia do Imperio Romano e, per cosi dire, da historia da Humanidade, tal como ocorrera na Via Condoti sob outra inspiraçao, sentiu um incontrolavel impulso vindo do fundo d’alma, uma nova transformaçao interior que a levou a bradar ante o espantado porteiro de Pompeia: “Aprite le porte, arriva Calpurnia, moglie de Giulio Cesare”. Pois é, a maluca, sem mais nem menos, assumiu a identidade da esposa do primeiro – per cosi dire – imperador romano (como se sabe, depois veio Otavio, mais tarde Augusto,  e com este é melhor nao brincar...).
Come una vera e propria imperatrice, o fato é que a redeviva Calpurnia botou pra quebrar em Pompeia. E nao é que a malvada invocou que este povero lacaio era Giulio Cesare, seu esposo. Em meio ao Forum de Pompeia, entre uma taça e outra de Falerno, viu passaros moverem-se de forma estranha no ar, anunciando tragicos acontecimentos para os idos de março. Eu, miseravel, nel ruolo de Cesare, so fazia concordar com a maluca, ante o pavor de impiedosos castigos.
O fato é que a jornada, ao fim e ao cabo, correu bem e seguramente encerrou-se de forma mais economica que a incursao à Condoti, pois tudo somado a sortida a Pompeia ficou na casa dos 200 euros, contra os milhares gastos nas boutiques famosas daquela  elegante strada de Roma. E Calpurnia, feliz, pode brindar al pranzo com um alegre casal de japoneses, cujo idioma demonstrou conhecer profundamente quando, ao final da refeiçao a base de gnocchi, dirigiu-lhes solene a saudaçao: “Sayonara”.
Mas como nem tudo é perfeito neste mundo, por nao gostar do sabor do molho do almoço, a implacavel Calpurnia obrigou o seu Cesare, ou seja, este humilde cronista, a prepara um tortellini alla panna, burro e formagio, que devorou solenemente, como uma verdadeira imperatriz, apos o que, como esperado, chicoteou il povero Pietro, antes de bota-lo para dormir no terraço, a dois graus abaixo de zero.
Questo è il mio destino, questa è mia vita…

Roma 22/12/2009

Enquanto nao escrevo o relato de hoje, podem ir lendo o texto meigo produzido pelo engraçadinho do meu marido....
nem vou comentar.....

Produzido enquanto, uma pobre criatura doente de tanto tomar chuva, descansava depois de uma manha cansativa tomando cafe na FAO....

A saga de Lady Turkey
(Extraido do diario secreto do lacaio Pietro)
Diz a lenda que em tempos imemoriais uma bela jovem brasileira, avida de prazeres mundanos, aterrisou inopinadamente na Via Condoti onde foi acossada por um ataque fulminante de consumismo agudo. Diante das  vitrines de Prada, NYK, Armani, Gabbana, Gucci, Bulgari, Kenzo, Dior etc, etc, etc, subitamente transtornou-se e –poder-se-ia ate dizer – transformou-se em outra pessoa completamente diferente do que sempre fora ate aquela data. Sentiu-se uma completa perua. Desesperada por revelar sua nova identidade aos circunstantes – centenas de lojistas implacaveis e de consumidores vorazes –bradou entre impulsos incontrolaveis: “Sou uma perua, sou uma perua”. Purtroppo, nessuno capiva quella lingua difficille.
Felizmente, a linda brasileira tivera uma educaçao de princesa e apelou, ato continuo, ao idioma de Shakespeare, que dominava perfeitamente. Mas antes foi ao recondito da memoria para saber como declarar-se perua no ingles global que o mundo inteiro hoje fala e no qual certamente todos ali a entenderiam. O melhor que conseguiu foi lembra a palavra turkey. Mas como seria o seu feminino? O desespero por expor publicamente sua nova personalidade era tamanho – e o desgraçado do Iphone nao funcionava para consultar o Google – que nao teve duvida em compor um novo termo, alias, deveras senhorial. Declarou, fitando nos olhos o atonito vendedor que tinha diante de si, com convicçao: “I am Lady Turkey”.
Assim, a partir daquele dia, todas as vezes em que passava pela Via Condoti – e foram dias e dias, horas e horas, minutos e minutos interminaveis para o lacaio que sempre a acompanhava, il povero Pietro – ja ao apoximar-se daquela sede da elegancia europeia ouvia-se pelas rendondezas o incontido murmurinho: “Arriva Lady Turkey, arriva Lady Turkey...”
Tudo entao ia bem naquela temporada inesquecivel, sob a chuva renitente ainda mais inesquecivel de Roma, ate que involuntariamente  acabou por ganhar um novo titulo, em razao de seus habitos gastronomicos singulares. Entre pranzi e cene inesqueciveis, nao hesitava em pedir sempre um queijo de bouquet meio estravagante, com ums fiapo verdes entre o branco do leite. Pedia-o em todas as suas formas, variedades e apresentaçoes. Era aquele formagio puzzolento como entrada, no molho da pasta, com carnes variadas e ate na sobremesa. Comeu tanto e em tais quantidades  que um dia, uma alegre garçon de uma tradicional trattoria do Trastevere, nao hesitou em nomea-la aos brados, entre todos os comensais – em ingles global para ser gentil, claro: “The Quenn of Gorgonzola”.
  E assim, a gentil brasileira, Claudia de batismo, que viera a Roma apenas em breve estada turistica com seu lacaio Pietro, transformou-se em poucos dias numa celebridade instantanea, procurada por jornais, entrevistada nas quatro emissoras da RAI, perseguida por paparazzi, enfim um show de garota. Mas, afinal, entende-se o que se passou. Pois nao e todo dia que Roma acolhe uma personalidade tao deslumbrante, sofisticated, meiga e marcante como “Lady Turkey, the Quenn of Gorgonzola”...